| Precisa de inspiração?
Venha para a Riviera Italiana |
Há mais de um século de pintores e poetas vêm
buscar inspiração ao lado de Gênova, mas belezas
de Portofino, San Remo e outras cidades inesquecíveis do litoral
mais chique da Itália.
Claude Monet pintou mais de quarenta quadros em Bordighera. Rubens,
enquanto morou em Gênova, pintou outros tantos. Friedrich Nietzsche
começou a escrever Assim Falou Zaratustra em Rapallo. Os românticos
Percy Shelley e Lord Byron foram colher material para seus poemas no
Golfo de La Spezia. Alfred Nobel escolheu San Remo - e uma villa de
frente para o Mediterrâneo - para passar os últimos dias.
Deve haver algo de muito inspirador na Riviera Italiana. Monet dizia
que era o Sol. Para ele, o Sol do Mediterrâneo deveria ser pintado
com ouro e pedras preciosas. E tão logo você desembarque
em algum dos vilarejos pesqueiros da costa da Ligúria, vai perceber
que o Sol daqui tem mesmo vocação de pintor. Em cada parede
das casinhas verticais dos moradores, a luz rebrilha num tom diferente
entre o vermelho-sangue e o amarelo-palha, oferecendo uma amplíssima
gama de cores solares que nem a mais avantajada caixa de lápis
de cor poderia ter. As aldeias da Ligúria são tão
iluminadas que até o pior humor pode mudar de rumo diante delas.
Inspiração, porém, custa caro. Já faz tempo
que a Riviera Italiana é destino de aristocratas, ricaços
e artistas (se ganham muito dinheiro, bem entendido). A ferrovia chegou
no século 19. E com ela as primeiras famílias de nobres
que fugiam dos gélidos invernos de seus países. San Remo
caiu nas graças da czarina Maria Alexandrovna, da Rússia.
O marketing foi tão eficiente que, em poucos anos, já
havia uma colônia inteira de aristocratas russos povoando o balneário.
É o que explica a inusitada igreja ortodoxa da foto à
esquerda, com cúpulas prateadas que se erguem à beira
do Mediterrâneo. Mas nenhum lugar de toda a Riviera escancara
tanto a dolce vita dos poderosos quanto Portofino. Os mortais podem
até visitá-lo. Passar uma temporada, porém, só
em roteiro de cinema. Portofino é um dos lugares mais exclusivos
da Itália: minúsculo, oculto entre rochedos e com poucas
opções de hospedagem. A vasta maioria dos turistas vem
apenas passar o dia aqui. Eles zarpam do porto de Santa Margherita Ligure,
desembarcam na piazzetta de Portofino e passeiam entre as vitrines que
exibem os últimos modelos de Giorgio Armani e Ermenegildo Zegna.
A minoria hospeda-se no Hotel Splendido, um dos mais chiques da Europa,
ou aluga uma casinha de pescador por 5 000 euros ao mês ou, ainda,
tem a chance de comprar uma das raras casas à venda. Como fizeram,
aliás, Elizabeth Taylor e Silvio Berlusconi, premiê da
Itália.
Um certo Colombo
Riqueza é algo que nunca faltou à Ligúria, região
que abriga a Riviera Italiana. Entre os séculos 12 e 14, Gênova
- a capital da região - foi a sede de uma poderosíssima
república marítima, rival de Veneza e Pisa no cobiçado
comércio do Mediterrâneo. Os domínios econômicos
de La Superba, como era chamada, iam de Gibraltar ao Mar Negro. Não
por acaso, aqui nasceu em 1451 um certo Cristoforo Colombo, que viria
a ser o navegante mais célebre de todos os tempos. Foi Gênova
que, no século 16, financiou as grandes empreitadas da Coroa
espanhola rumo a novas terras. Naquela época, dizia-se que o
ouro nascia na América, morria na Espanha e era enterrado em
Gênova. Precisamente no Palazzo San Giorgio, onde foi criado o
primeiro banco do Mediterrâneo, em 1407.
A vocação mercantilista levou as famílias genovesas
a amealhar enormes fortunas, gastas em palazzi, igrejas particulares
e praças com seus sobrenomes. Mais que um Estado, Gênova
era um agrupamento de famílias ricas que brigavam entre si para
decidir quem tinha a maior fortuna. Brigas inúteis, porque séculos
mais tarde tudo viria abaixo com a decadência do comércio
naval. Gênova tornou-se uma cidade industrial, escura e portuária
(no pior sentido).
O Centro Histórico - por sinal, o maior da Europa - era povoado
pelos mais suspeitos seres da noite. A revitalização começou
em 1992, na celebração dos 500 anos do Descobrimento da
América, quando a União Européia injetou boa cifra
no berço de Colombo. Começaram as reformas do Porto Antigo,
a cargo do arquiteto Renzo Piano. A ponta de lança foi o Aquário,
tido como um dos mais completos da Europa. São setenta tanques
onde nadam mais de 600 espécies. Mais ou menos como aconteceu
com o Museu Guggenheim de Bilbao (na Espanha), o Aquário foi
o propulsor para colocar Gênova de novo no mapa do turismo e resgatar
a elegância perdida. Em 2001, a cidade acolheu uma reunião
do G8 (o grupo dos oito chefes de Estado mais poderosos do mundo) e
em 2004 será a nova capital européia da cultura. Gênova
tornou-se irreconhecível. O que não está em obras
reluz de novo ao sol do Mediterrâneo. O Porto Antigo transformou-se
em uma esplanada de restaurantes, lojas e bares. O Centro Histórico
recuperou o fausto dos palácios dos tempos marinheiros. A Avenida
XX de Settembre, a principal de Gênova, ganhou o requinte que
merece toda grande cidade italiana. O talento para a navegação,
no entanto, continua intacto. Gênova permanece o maior porto do
Mediterrâneo e o ponto de partida para a maior parte dos cruzeiros
pela região. E nem poderia ser diferente. A Ligúria é
a região mais esguia da Itália: uma fina faixa de 350
quilômetros apertada entre o mar e os Apeninos. Mesmo que quisessem,
os lígures não teriam outra opção a não
ser se voltar para a vida à beira-mar. É o que você
vai reparar, qualquer direção que tome, ao sair de Gênova.
Se virar à direita, vai cair na Riviera di Ponente, que segue
rumo à França. Se optar pela esquerda, irá conhecer
a Riviera di Levante, que encosta na Toscana. Em ambas, você encontrará
diferentes versões de uma Itália oblíqua que insiste
em se pender sobre o Mediterrâneo.
Uma Itália medieval
A Riviera di Ponente é mais moderna, cheia de grandes balneários.
Sua proximidade com a França define uma personalidade que tem
muito de Côte d'Azur, como se uma fosse a continuação
da outra. Especialmente em San Remo, a cidade mais famosa de todo o
Ponente e sede de um dos quatro cassinos da Itália. Célebre
desde os tempos da czarina Maria Alessandrovna, San Remo foi, durante
muito tempo, destino de monarcas. Até o Rei Roberto Carlos passou
por aqui, quando venceu a edição de 1968 do Festival da
Canção com Canzone per Te, de Sergio Endrigo. O Festival
de San Remo, que agora chega a seu 54o ano, continua lançando
os ídolos pop do verão italiano. Se você passar
por San Remo, não custa nada resistir a algumas horas de praia
para se embrenhar montanha adentro e descobrir uma Itália medieval
a poucos quilômetros dos balneários mais refinados.
Experimente Alpimonte e Dolceacqua. No primeiro, você pode até
ter a sorte de topar com um jogo de palla a pugno em que um castelo
delimita a quadra. Em Dolceacqua, penetre nas ruelas cobertas que cheiram
à Idade Média e descubra por que Monet se encantou tanto
com este lugar. Tão sofisticada quanto o Ponente é a Riviera
de Levante, mas num outro sentido. Aqui os vilarejos de pescadores mantiveram-se
quase intactos, preservando as casas coloridas e o tamanho reduzido.
Tudo é muito exclusivo, segregado pelos penhascos que os Apeninos
deitam sobre o mar. Portofino só existe um, mas há dezenas
de outros vilarejos no Levante que prestam sua homenagem ao Sol mediterrâneo.
Cinco dos mais evocativos ficam no extremo sul. Agrupados, Monterosso
al Mare, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore formam as Cinque
Terre. Aqui, só se chega de trem ou a pé. As vilas são
interligadas por belas trilhas sobre os penhascos. O caminho que une
as últimas duas é chamado de Via dell'Amore, um romântico
passeio sobre o Mediterrâneo em cujos muros os apaixonados imprimem
suas juras de amor nas mais diversas formas de arte, de rabiscos quase
abstratos a poesias visuais da mais alta linhagem. Esta Riviera é
mesmo inspiradora. Vai ver é o Sol.
MATÉRIA PUBLICADA NA EDIÇÃO 49. NOVEMBRO/03.
Por e fotos de Xavier Bartaburu